Enquanto na Ásia e na América os preços de um medicamento para emagrecimento e diabetes estão a cair a pique, muitos doentes na Europa continuam a ficar sem resposta.
Há anos que um determinado princípio activo domina as manchetes, por conseguir baixar a glicemia e, ao mesmo tempo, ajudar a perder peso. Agora, em vários países, a estrutura de preços está a desfazer-se - precisamente em regiões onde vive uma grande fatia da população mundial. Já em muitos Estados mais ricos, o acesso mantém-se caro e fortemente condicionado.
O que está por trás do hype do Ozempic
O Ozempic e os medicamentos “irmãos”, com posologias semelhantes, tornaram-se provavelmente dos fármacos mais debatidos dos últimos anos. O seu princípio activo, o semaglutido, pertence ao grupo dos análogos do GLP‑1: imitam uma hormona intestinal que influencia a libertação de insulina e reforça a sensação de saciedade.
Na prática, isto traduz-se em dois efeitos muito procurados: a glicemia desce e muitos doentes perdem peso de forma marcada, porque sentem menos fome. Embora tenha sido desenvolvido para pessoas com diabetes tipo 2, os estudos também mostraram eficácia do semaglutido em casos de adiposidade grave. Foi precisamente esta combinação que desencadeou uma corrida global às canetas injectáveis - e, com ela, rupturas de stock e preços exorbitantes.
"Até agora, eram as patentes e os preços elevados que determinavam quem conseguia pagar a ‘injeção milagrosa’ - sobretudo nos países mais ricos."
Patentes a expirar: genéricos baratos para até 40% da população mundial
Em vários países muito populosos, os direitos de protecção do Novo Nordisk estão agora a chegar ao fim. O ponto-chave é que, na Índia e na China, a protecção por patente do semaglutido termina muito antes do que na Europa ou nos EUA. Em conjunto, estes dois países representam cerca de 40% da população mundial.
Com o fim das patentes, as farmacêuticas locais passam a poder fabricar as suas próprias versões do princípio activo. E isso altera o mercado de forma imediata: os produtores de genéricos conseguem, regra geral, montar capacidades laboratoriais e cadeias de produção a custos substancialmente mais baixos do que o fabricante original.
Quem acompanha o sector estima que, nestes mercados, o preço de uma terapêutica mensal possa estabilizar num valor muito inferior ao praticado até aqui. As primeiras contas apontam para cerca de 15 dólares norte-americanos por mês - em vez de várias centenas de dólares, como é frequente nos EUA.
- Índia e China: patente expira; genéricos poderão surgir a partir de cerca de 15 dólares por mês
- Canadá: protecção por patente terminou no início de 2026; já existem vários pedidos de genéricos
- Brasil: patente terminou em março de 2026; numerosos fabricantes de genéricos estão prontos para avançar
No Canadá, a autoridade reguladora está a analisar múltiplos pedidos de autorização de empresas como Sandoz, Teva ou Apotex. No Brasil, segundo a autoridade de saúde, já foram submetidos mais de uma dúzia de dossiês para medicamentos equivalentes. A concorrência deverá, também aí, empurrar os preços para baixo de forma significativa.
Porque é que os doentes em países ricos continuam a pagar preços máximos
Na Europa e nos EUA, o cenário permanece caro - e com pouca margem de manobra. Aqui, as patentes determinantes sobre o semaglutido só deverão expirar no início da década de 2030. Enquanto essa protecção estiver em vigor, o Novo Nordisk mantém uma capacidade ampla de definir preços e de manter potenciais concorrentes fora do mercado.
"Para muitos doentes nos países industrializados, o semaglutido continua a ser um medicamento de luxo, apesar da eficácia comprovada na diabetes e na adiposidade."
Nos EUA, quem não tem um seguro de saúde robusto pode ter de suportar várias centenas de dólares por mês. Perante isso, alguns doentes recorrem a soluções extremas: reduzem doses para “esticar” o tratamento, encomendam produtos duvidosos online ou viajam para países onde o preço é mais baixo.
Na Europa, a contenção também passa pela comparticipação. Muitos sistemas públicos cobrem o custo quando existe diabetes, mas, em casos de adiposidade sem diabetes, as regras tendem a ser apertadas - ou até excluem a comparticipação. Com isso, perde-se a oportunidade de tratar o excesso de peso significativo mais cedo e de evitar complicações futuras.
França como exemplo: preço total para doentes com adiposidade
Em França, a tensão entre eficácia e acesso é particularmente visível. O Ozempic está aprovado para diabetes tipo 2 e é parcialmente reembolsado pelo seguro de saúde público. No entanto, nos últimos anos, as regras foram endurecidas: os médicos de família passaram a poder prescrever de forma mais limitada, os especialistas estão sobrecarregados e muitas clínicas dão prioridade a doentes com diabetes.
Para pessoas com adiposidade sem diabetes existe outro medicamento à base de semaglutido, mas com uma diferença decisiva: não há comparticipação. Dependendo da dose, os doentes têm de pagar 200 a 300 euros por mês do próprio bolso - e durante anos.
Assim, enquanto centenas de milhões de pessoas na Índia, China, Canadá ou Brasil podem realisticamente contar com genéricos mais baratos nos próximos anos, para muitos franceses com excesso de peso o semaglutido mantém-se um objectivo distante. Especialistas consideram que, na Europa, versões equivalentes a preços baixos só deverão chegar no mínimo em 2031 ou 2032.
Adiposidade como doença de massas - e oportunidades perdidas
A França não é caso único. Em grande parte da Europa, a adiposidade já está entre as maiores doenças de massas. Aumenta de forma acentuada o risco de enfarte, AVC, alguns tipos de cancro e problemas articulares.
As autoridades responsáveis reconhecem cada vez mais a eficácia do semaglutido em situações de excesso de peso grave. Ainda assim, a comparticipação e o acesso generalizado continuam a ser discutidos, porque os orçamentos da saúde já estão sob pressão. É aqui que um genérico barato poderia aliviar a situação - mas esse alívio ainda está a anos de distância.
O que a queda acentuada dos preços significa para a saúde global
A descida esperada dos preços em países muito populosos pode mudar a forma como se trata a diabetes e a adiposidade à escala mundial. Em vários Estados com uma classe média em crescimento rápido, a alimentação pouco saudável, o sedentarismo e o excesso de peso aumentam de forma notória - e muitos sistemas de saúde não conseguem acompanhar.
Se o semaglutido passar a custar o equivalente a poucos euros por mês, os médicos poderão utilizá-lo de forma muito mais ampla. Podem, por exemplo, surgir programas que combinem o medicamento com aconselhamento nutricional e actividades de exercício físico. Isso ajudaria a conter doenças associadas que, até agora, geram custos enormes.
| Região | Situação da protecção por patente | Nível de preço esperado |
|---|---|---|
| Índia / China | Patentes expiraram | Cerca de 15 dólares por mês |
| Canadá / Brasil | Patentes expiraram, genéricos em preparação | Muito abaixo dos preços anteriores |
| Europa / EUA | Patentes até ao início da década de 2030 | Podem manter-se várias centenas de euros / dólares por mês |
Oportunidades, riscos e perguntas em aberto
A ascensão do semaglutido não gera apenas entusiasmo. Médicos alertam para o risco de se venderem as injecções como um simples truque “lifestyle” para emagrecer depressa. O princípio activo pode causar efeitos secundários, como náuseas e problemas digestivos, e, raramente, complicações mais graves. Além disso, ainda faltam dados de longo prazo para uma utilização verdadeiramente massiva.
Ao mesmo tempo, esta evolução evidencia até que ponto patentes e estratégias de preço condicionam as oportunidades em saúde. A mesma molécula pode ser acessível num país e incomportável noutro. Para muitos doentes, isto parece um sorteio médico dependente do local onde se vive.
Para a Alemanha e os países vizinhos, coloca-se a questão de saber se irão esperar passivamente pelo fim das patentes - ou se a política e os financiadores encontrarão modelos que garantam acesso a determinados grupos de risco, apesar dos preços elevados. Uma hipótese seria criar programas rigorosamente regulados, por exemplo para doentes com excesso de peso muito significativo e com complicações já instaladas.
No fundo, o conflito é claro: o semaglutido pode prolongar a vida e prevenir doenças graves, mas o medicamento original custa muito. Na Índia, China, Canadá e Brasil, este dilema começa a atenuar-se; na Europa e na América do Norte, por enquanto, continuará a marcar a realidade.
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